A Bíblia de 1.600 anos que saiu de um mosteiro do Sinai
Um documentário de 32 minutos. O vídeo estreia em breve no YouTube; enquanto isso, você já pode ler o resumo, os capítulos e o texto completo.

Na capa, a pintura de Adolf Meckel von Hemsbach, 1890, do Museu de Belas Artes de Gante.
Em fevereiro de 1859, num mosteiro do Sinai, um estudioso alemão viu pela primeira vez o resto de um livro que hoje chamamos de Códice Sinaítico: uma Bíblia grega do século IV, com o Novo Testamento completo mais antigo que sobreviveu. Neste documentário: como ele foi feito, como foi parar em Leipzig, São Petersburgo e Londres, por que o mosteiro e Tischendorf contam a história de jeitos diferentes, e o que ele muda, e não muda, na Bíblia que você lê. Católicos, ortodoxos e protestantes aparecem com as próprias fontes, sem que o vídeo decida por nenhuma tradição.
O texto completo do vídeoLer
0:00Abertura
Fevereiro de 1859. Num mosteiro no deserto do Sinai, um monge mostra a um estudioso alemão um volume grosso, embrulhado num pano vermelho. Anos depois, ele escreveu que, naquela noite, soube que tinha nas mãos o tesouro bíblico mais precioso que existe.
Esse livro tem mais de mil e seiscentos anos. Traz o Novo Testamento completo mais antigo que sobreviveu. E foi corrigido à mão, por leitores diferentes, durante oito séculos.
Hoje, ele está dividido entre quatro países. E as instituições que o guardam ainda não chegaram a um acordo pleno sobre como ele saiu do mosteiro.
0:43Um livro, não um rolo
Comece pelo formato. O Códice Sinaítico não é um rolo. É um códice: folhas dobradas e reunidas em cadernos, como um livro de hoje.
Cada folha que sobrou mede 38 centímetros de altura por 34 e meio de largura. É um livro grande. O texto é grego. E o desenho da página chama a atenção: quatro colunas de texto por página, numa letra clara e regular. Só os livros poéticos, como os Salmos, têm duas. O site oficial do projeto lembra que pouquíssimos manuscritos que sobreviveram foram escritos assim, em quatro colunas.
Quando ficou pronto, o volume tinha mais de 730 folhas. Hoje, sobram pouco mais de 400. O que havia dentro? Originalmente, a Bíblia inteira: o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento, na tradução grega chamada Septuaginta. O Novo Testamento, completo. E, depois dele, dois textos cristãos antigos que não estão nas Bíblias de hoje: a Epístola de Barnabé e parte de um livro chamado O Pastor, de Hermas.
Uma parte se perdeu. Do Antigo Testamento, sumiu quase todo o começo: a maior parte dos chamados livros históricos, de Gênesis a 1 Crônicas. O Novo Testamento, ao contrário, chegou inteiro.
E aqui está a primeira surpresa. Os livros do Novo Testamento são os mesmos das nossas Bíblias. Mas a ordem é outra. A carta aos Hebreus vem logo depois da segunda carta aos Tessalonicenses. E o livro de Atos vem depois de todas as cartas de Paulo, logo antes das cartas de Tiago, Pedro, João e Judas.
Quando esse livro foi feito? Os especialistas datam o códice do século quatro. Muitos, mais precisamente, da metade desse século. A data não vem de uma assinatura. Vem do estudo da letra, a paleografia. O mosteiro onde ele foi encontrado fala em segundo quarto do século quatro.
Existe só um manuscrito da Bíblia cristã comparável, quase completo e de data parecida: o Códice Vaticano, guardado na Biblioteca do Vaticano. Os manuscritos cristãos claramente mais antigos do que o Sinaítico trazem apenas pequenas partes do texto bíblico. Por isso, o mosteiro afirma, com todas as letras, que ali está o Novo Testamento completo mais antigo que sobreviveu.
Quem escreveu? Não uma pessoa só. No século dezenove, o estudioso alemão Constantin von Tischendorf, que você vai conhecer daqui a pouco, identificou quatro copistas. Estudos posteriores concluíram que eram três. Cada um é reconhecível pela letra e até pelo jeito de soletrar. Um deles pode ter sido o copista mais experiente, uma espécie de chefe.
Depois dos copistas, vieram os corretores. Muitos. Do século quatro ao século doze, mãos diferentes mexeram no texto: às vezes numa letra, às vezes numa frase inteira. O site oficial do projeto resume assim: nenhum outro manuscrito antigo da Bíblia cristã foi corrigido tanto quanto este.
Guarde essa informação. Ela é a chave deste vídeo.
4:19Ao pé do monte
Para entender como esse livro sobreviveu, é preciso ir até onde ele foi encontrado. Sul da península do Sinai, no Egito. Um mosteiro cercado por muralhas de fortaleza, no meio do deserto, ao pé das montanhas.
A tradição liga esse lugar ao livro do Êxodo. É o próprio mosteiro que afirma: foi aqui que Deus apareceu a Moisés na sarça ardente. E foi aqui que Moisés recebeu os Dez Mandamentos.
O texto bíblico descreve a cena assim: «eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia.» E, no mesmo capítulo, Moisés ouve: «tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa.»
Em volta desse lugar, desde muito cedo, monges e eremitas se espalharam pelo sul do Sinai. O mosteiro fala numa história de dezoito séculos. Por volta do ano 380, poucas décadas depois da data provável do nosso códice, uma peregrina chamada Egéria passou por ali. E registrou uma igreja ao lado da sarça.
No século seis, o imperador Justiniano mandou construir a grande basílica e as muralhas de fortaleza que cercam o mosteiro até hoje. Ao norte da basílica, o mosteiro ainda mostra o poço onde, segundo a tradição, Moisés encontrou as sete filhas de Jetro.
E o mosteiro seguiu vivo. Como ele mesmo lembra, atravessou catorze séculos de domínio islâmico sem deixar de existir. Hoje, é conhecido como Mosteiro de Santa Catarina. E mantém uma biblioteca de manuscritos antigos.
Sobre o nosso códice, o mosteiro não economiza palavras. Diz que estudá-lo é absolutamente essencial para quem quer estudar a história do texto das Escrituras. Um livro só atravessa tantos séculos se alguém o guarda. E, antes de ser disputado por impérios, este foi guardado por monges.
Agora, uma pergunta honesta. Quando o Códice Sinaítico chegou ao Sinai? A história publicada pelo projeto oficial não traz essa data. E seria desonesto inventar uma para preencher o buraco. O registro mais antigo que o projeto cita é de 1761. Naquele ano, um naturalista italiano, Vitaliano Donati, descreveu uma Bíblia de folhas de pergaminho bonitas, grandes, finas e quadradas.
Ou seja: em 1761, o livro já estava lá. E já era visto como uma Bíblia. Quase um século antes do pano vermelho. Isso vai ser importante quando falarmos de Bíblias «escondidas».
Mas, antes de chegar ao pano vermelho, precisamos voltar ao século quatro. Quem fazia um livro desses? E quanto isso custava?
7:15Cinquenta Bíblias para um imperador
No século quatro, o imperador Constantino escreve uma carta a Eusébio, bispo de Cesareia. A cidade que leva o nome do imperador está cheia de gente nova na fé, e faltam igrejas. O pedido é direto: cinquenta cópias das Sagradas Escrituras.
A carta traz especificações. Pergaminho preparado. Letra legível. Formato cômodo e fácil de transportar. E cópias feitas por copistas profissionais, bem treinados na sua arte. O imperador autoriza até o uso de duas carruagens do serviço público para levar os livros.
Eusébio conta o desfecho: as cópias seguiram em volumes suntuosos, encadernados com esmero.
Seria o Códice Sinaítico uma dessas cinquenta Bíblias? Houve estudiosos que pensaram que sim. Mas, como lembrou em 1912 Frederic Kenyon, diretor do Museu Britânico, não há o menor sinal de que ele tenha passado por Constantinopla. E onde ele nasceu? O site oficial do projeto, hoje, não aponta um lugar. É hipótese, não fato.
Há uma pista dentro do próprio livro. No fim de Ester, um corretor deixou uma nota, séculos depois da cópia: o texto tinha sido conferido com um manuscrito muito antigo, corrigido pela mão do mártir Pânfilo. No fim de Esdras, outra nota traz o nome dele. Pânfilo tinha fundado uma biblioteca cristã em Cesareia, na costa da Palestina. Por essa nota, Kenyon concluiu que o códice esteve em Cesareia, provavelmente já no século seis. Mas achava que ele não foi feito lá.
Então, fiquemos com o que se pode ver nas próprias páginas. O que era preciso para fazer um livro assim?
Primeiro, a pele. O códice foi escrito em pergaminho, pele de animal. A pele virava folha, e a folha precisava ser preparada. Depois, pautada: uma grade de linhas finas marcava o lugar de cada coluna e de cada linha. Depois, pena e tinta. E então, a cópia.
Cada copista tinha suas manias. O site do projeto nota que eles soletravam de jeitos diferentes, sobretudo as vogais, que muitas vezes escreviam do jeito que pronunciavam. É um detalhe pequeno. Mas é por ele que os pesquisadores reconhecem a mão de cada um, dezesseis séculos depois.
E quanto valia esse trabalho? Temos uma pista de preço, e ela é oficial. No ano 301, o imperador Diocleciano publicou um edito com preços e salários máximos para o Império. Para o copista, o teto era de 25 denários por cem linhas da melhor escrita, e de 20 denários por cem linhas de segunda qualidade.
Para comparar: no mesmo edito, um trabalhador do campo podia ganhar até 25 denários por dia, além da comida. Cem linhas da melhor escrita valiam, no teto, um dia inteiro de trabalho no campo. O edito não fala do nosso códice. Mas dá a escala. E o Códice Sinaítico tinha mais de 730 folhas, a maioria delas com quatro colunas por página.
Depois da cópia, vinha a conferência. E é aqui que o Sinaítico se torna único. Os primeiros a corrigi-lo foram os próprios copistas, ainda no século quatro. Depois vieram outros. E outros. Até o século doze.
Quantas correções? Muitas. A Universidade de Birmingham, que fez a transcrição para o projeto, fala em numerosas revisões e correções, todas transcritas. E estão lá, na página, para quem quiser ver.
E algumas dessas correções fizeram uma coisa que interessa a quem lê a Bíblia hoje: ajustaram o texto ao de outra cópia, como conta a nota de Pânfilo. É daí que nasce a pergunta deste vídeo. Mas, antes, vamos ver como esse livro saiu do Sinai.
11:35O homem do pano vermelho
Constantin von Tischendorf era um estudioso alemão, baseado em Leipzig. Viajava atrás dos manuscritos mais antigos da Bíblia. E quem pagava as viagens era o rei da Saxônia, Frederico Augusto II.
Em maio de 1844, ele chega ao mosteiro do Sinai. E é ele mesmo quem conta o que viu, num relato que publicou em 1865. No meio do grande salão, diz ele, havia um cesto largo, cheio de pergaminhos velhos. E o bibliotecário lhe contou que dois montes de papéis como aqueles, estragados pelo tempo, já tinham ido para o fogo.
Entre aqueles papéis, Tischendorf reconhece folhas de um Antigo Testamento em grego que lhe parecem das mais antigas que ele já tinha visto.
Pelos registros do projeto oficial, os monges lhe mostraram 129 folhas. Ele levou 43. E por que não levou todas? Segundo o próprio Tischendorf, porque demonstrou alegria demais, e isso deixou os monges desconfiados do valor daquilo.
As 43 folhas vão para Leipzig. Em 1846, ele as publica com o nome de Códice Frederico-Augustano, em homenagem ao rei que pagava as viagens. Elas estão em Leipzig até hoje.
Enquanto isso, em 1845, um ano depois da primeira visita, outro visitante examina o resto do livro. O arquimandrita russo Porfírio Uspênski vê as 347 folhas que continuavam no mosteiro. E leva três fragmentos, tirados de encadernações. E a Rússia vai voltar a esta história.
Em 1853, Tischendorf volta ao Sinai. E não encontra o tesouro. Só um fragmento com onze linhas curtas do livro do Gênesis, que, pelo relato dele, servia de marcador de página.
Em 1859, ele volta pela terceira vez. Agora, com o patrocínio do czar da Rússia, Alexandre II. E é nessa viagem que acontece a cena do pano vermelho.
No dia 4 de fevereiro, na cela do ecônomo, o monge que cuidava da administração da casa, Tischendorf vê surgir um volume grosso, embrulhado num pano vermelho. Dentro, segundo ele, estavam as mesmas folhas que ele tinha visto no cesto quinze anos antes. E muito mais. Era o resto do códice, com o Novo Testamento inteiro.
Tischendorf escreve que, dessa vez, teve o autocontrole de esconder a alegria. E que, naquela noite, soube que tinha nas mãos o tesouro bíblico mais precioso que existe.
Daqui em diante, a história vira diplomacia. Em 24 de fevereiro, o códice vai para o Cairo, para a casa que o mosteiro mantinha lá. Tischendorf o estuda de março a maio. A ideia dele é oferecer o original ao czar da Rússia.
Em setembro de 1859, Tischendorf assina um recibo. É um recibo de empréstimo das 347 folhas. No mesmo mês, uma carta do embaixador russo, o príncipe Lobanov, registra que a propriedade do códice continuava com o Sinai até que houvesse uma doação.
E o próprio Tischendorf, no relato que publicou, usa a mesma ideia: recebeu dos monges a Bíblia do Sinai, nas palavras dele, «na forma de um empréstimo», para levá-la a São Petersburgo. Em novembro de 1859, segundo ele, o códice já brilhava «como uma coroa» no meio da coleção que ele mostrou ao czar.
Em 10 de novembro de 1862, em Tsarskoye Selo, ele apresenta ao czar uma edição fac-símile do códice. E, na mesma audiência, entrega o manuscrito.
Empréstimo. Guarde essa palavra. Ela está no centro da disputa que vem agora.
15:51Resgate, empréstimo ou doação?
Existem duas maneiras de contar o que aconteceu. E as duas têm documentos.
A primeira é a de Tischendorf. Na versão dele, pergaminhos velhos do mosteiro iam para o fogo. Ele salvou o que pôde em 1844. Em 1859, encontrou o resto. E levou o códice ao czar com o acordo dos monges: primeiro como empréstimo, depois como presente.
Essa versão tem apoio em papel. Em novembro de 1869, o arcebispo do Sinai, Calistrato, e as assembleias dos monges assinaram um ato de doação. E assinaram de novo, cinco dias depois. O códice passou à Biblioteca Imperial de São Petersburgo. E, em 2015, o pesquisador Stanley Porter defendeu Tischendorf com documentos dos arquivos russos.
A segunda maneira de contar é a do mosteiro. No site oficial, os monges dizem que Tischendorf prometeu devolver o manuscrito ao primeiro pedido. Dizem que ele justificou a retirada alegando que o códice estava prestes a ser queimado pelos monges. E completam: o mosteiro sempre protestou contra essa calúnia e lamenta a perda deste manuscrito.
E o fogo? Aqui há um detalhe que muita gente não conta. O próprio relato de Tischendorf apresenta o fogo como algo que o bibliotecário lhe disse, não como algo que ele viu queimar.
E há um achado do próprio mosteiro que também faz parte desta história. Em 26 de maio de 1975, o padre Sofrônio encontrou, numa câmara sob a capela de São Jorge, um depósito de fragmentos de manuscritos. Entre eles, folhas e pedaços do Códice Sinaítico.
Do outro lado, a doação de 1869 existe, assinada. Mas o site do projeto, mantido pelas quatro instituições, registra o contexto. O mosteiro vivia uma disputa pela sucessão do arcebispo. E a diplomacia russa estava no meio dela.
O próprio Tischendorf conta que, durante a disputa pela eleição, o arcebispo e seus amigos lhe pediram que usasse sua influência a favor do mosteiro.
E o site oficial do projeto admite, com todas as letras: as instituições parceiras ainda não chegaram a um acordo pleno sobre a história recente do códice.
Então: resgate, empréstimo ou doação? Nós não vamos decidir por você. Os documentos mostram um recibo de empréstimo em 1859 e um ato de doação em 1869. O mosteiro lembra a promessa de devolução. Tischendorf se apresenta como quem salvou o livro. As três coisas ficam aqui, lado a lado. Se as próprias instituições que guardam o códice ainda não fecharam essa conta, não seremos nós a fechá-la num vídeo.
19:00De São Petersburgo a Londres, e de volta numa tela
Em 1933, quem tinha o códice já não era um czar. Era o governo soviético de Stálin. E, nesse ano, ele decide vender.
O comprador é o Museu Britânico, em Londres. O preço: cem mil libras. Para fechar o negócio, o Tesouro britânico entra com 93 mil libras, e o Museu, com 7 mil.
No dia 26 de dezembro de 1933, o códice chega a Londres. E então o público entra na história. Uma campanha de doações é aberta para ajudar a pagar a compra. Até maio de 1934, já tinham sido doadas 46.500 libras. No fim, a campanha devolveu ao Tesouro 53.563 libras. Mais da metade do preço saiu de doações. Não foi só um negócio entre governos.
Um mês depois da chegada a Londres, em janeiro de 1934, vem um telegrama do Sinai. O arcebispo Porfírio declara que o mosteiro é o único dono legítimo do códice.
Parecia o fim da história. Mas o livro continuava dividido. Londres, com 347 folhas. Leipzig, com 43. São Petersburgo, com fragmentos de seis folhas. E o Sinai, com pelo menos dezoito folhas, inteiras ou em fragmentos.
Em 9 de março de 2005, as quatro instituições assinam um acordo de parceria: a British Library, a Biblioteca da Universidade de Leipzig, a Biblioteca Nacional da Rússia e o Mosteiro de Santa Catarina. O objetivo é reunir o códice. Não nas prateleiras. Na tela. Pela primeira vez desde 1844, as partes do livro voltariam a ficar lado a lado.
Cada página pode ser vista com luz normal ou com luz rasante, que vem de lado e revela a textura do pergaminho. E uma equipe da Universidade de Birmingham transcreve o texto: mais de 650 mil palavras, em quase quatro anos de trabalho.
Em 6 de julho de 2009, o site do projeto vai ao ar completo. Mais de 800 páginas e fragmentos, reunidos virtualmente. E um detalhe: as páginas achadas no Sinai em 1975 foram publicadas ali pela primeira vez. No mesmo dia, a British Library abre uma exposição com um nome que resume a ideia: «Do pergaminho ao pixel».
Scot McKendrick, da British Library, que presidiu o grupo internacional do projeto, resumiu assim: o projeto inteiro se apoia num acordo entre as quatro instituições. As mesmas quatro que ainda não concordam sobre a história recente do códice. E que, mesmo assim, trabalharam juntas.
Hoje, qualquer pessoa com internet pode abrir o Códice Sinaítico, página por página. E pode fazer, em casa, o que antes exigia viajar a quatro países: comparar letras, achar correções, ler as notas dos corretores. Então vamos abrir. Porque é ali, nas páginas, que estão as perguntas que interessam a quem lê a Bíblia.
22:42O que o códice mostra na sua Bíblia
Agora, a parte que mexe com quem lê a Bíblia. No Códice Sinaítico, alguns trechos conhecidos não estão lá. Ou foram marcados, um dia, para sair. Vamos a cinco exemplos, e a como as tradições cristãs lidam com eles.
Primeiro exemplo: o fim do Evangelho de Marcos. No Códice Sinaítico, Marcos termina no capítulo 16, versículo 8. As mulheres saem do túmulo com medo. E o texto para assim: «e nada diziam a ninguém, porque temiam.»
Os versículos 9 a 20, com as aparições de Jesus ressuscitado e o envio dos discípulos, não estão no Sinaítico. Nem no Códice Vaticano.
Na tradição católica, a nota da Nova Bíblia Americana, dos bispos dos Estados Unidos, diz que Marcos termina o seu texto em 16:8, mas que o final longo foi aceito como parte canônica do Evangelho, e o Concílio de Trento o definiu assim.
Na tradição ortodoxa, esse final é lido na liturgia. É o terceiro dos Evangelhos das Matinas, o ofício da manhã, e a leitura vai inteira, do versículo 9 ao 20, sem nenhuma marca de dúvida, como mostram as leituras publicadas por paróquias ortodoxas.
Nas Bíblias protestantes do Brasil, há dois caminhos: a Revista e Corrigida, que segue o Texto Recebido, do século dezesseis, traz o trecho sem marca; a Nova Almeida Atualizada o põe entre colchetes. E a Sociedade Bíblica Trinitariana defende o final longo, que está em quase todos os manuscritos gregos de Marcos.
Segundo exemplo: a mulher surpreendida em adultério. João 7:53 a 8:11. É a cena da frase: «Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.»
Esse trecho não está no Códice Sinaítico. Nem no Vaticano.
Na tradição católica, a nota da Nova Bíblia Americana diz que a história falta em todos os manuscritos gregos antigos e aparece em lugares diferentes, conforme a cópia, até no Evangelho de Lucas. E termina assim: a Igreja Católica aceita este trecho como Escritura canônica.
Nas Bíblias protestantes do Brasil, a Revista e Corrigida traz o trecho no texto corrido. Já a Revista e Atualizada, que segue o texto crítico, põe entre colchetes o que não é mais visto como parte do texto original, como explica a Sociedade Bíblica do Brasil.
Terceiro exemplo, talvez o mais revelador: Lucas 22, versículos 43 e 44. Jesus no Getsêmani. «E apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor fez-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.»
No Códice Sinaítico, esses versículos estão lá. O copista original os escreveu. Depois, um corretor marcou os dois versículos com ganchos e pontos, sinais para tirá-los do texto. E um corretor posterior apagou essas marcas.
Na mesma página, três mãos tomaram três decisões sobre dois versículos: escrever, marcar para sair, apagar a marca. E cada decisão ficou à vista. Esse é o Códice Sinaítico. Não um bloco de mármore. Uma conversa.
Quarto exemplo: o fim do Pai-nosso, em Mateus 6:13. Na Revista e Corrigida, o versículo termina assim: «porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.»
No Códice Sinaítico, o Pai-nosso de Mateus termina antes, no pedido para ser livrado do mal. A frase final não está nele. Nem no Vaticano. E a Sociedade Bíblica do Brasil cita Mateus 6:13 entre os lugares em que o Texto Recebido expande o texto.
Quinto exemplo: 1 João 5:7. Na Revista e Corrigida, o versículo diz: «Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.»
Essa frase, conhecida como parêntese joanino, não está no Códice Sinaítico. E a Sociedade Bíblica do Brasil informa que ela não aparece em nenhum manuscrito grego anterior ao século catorze.
Cinco exemplos. Em nenhum deles, a diferença é segredo. Está nas notas da Bíblia católica, nos colchetes das Bíblias protestantes e nas explicações das sociedades bíblicas. E o que cada tradição decidiu fazer com essas diferenças, decidiu às claras.
27:46O que o códice não prova
Com uma história dessas, não falta quem exagere. Então vamos separar o que o Códice Sinaítico mostra do que ele não prova.
Ele não é a Bíblia original. É uma cópia do século quatro, feita a partir de outras cópias. Uma nota do próprio livro cita um manuscrito mais antigo usado para conferir o texto. E existem manuscritos cristãos mais antigos do que ele, embora só com pequenas partes da Bíblia.
Ele não é uma Bíblia escondida. Em 1761, um naturalista italiano já o descrevia. Em 1845, um arquimandrita russo examinou suas folhas no mosteiro. Em 1862, Tischendorf publicou uma edição fac-símile. E, desde 2009, qualquer pessoa pode vê-lo na internet.
Ele não traz livros proibidos. Os dois textos extras, a Epístola de Barnabé e O Pastor, de Hermas, eram conhecidos. No século quatro, o historiador Eusébio de Cesareia, o mesmo das cinquenta Bíblias, colocava os dois entre os escritos rejeitados, que ele incluía no grupo dos livros disputados. E dizia que O Pastor tinha sido lido em público nas igrejas. Ou seja: eram lidos, discutidos e, no fim, ficaram fora das Bíblias de hoje. Nada de proibido às escondidas.
Ele não prova que a Bíblia foi adulterada. As diferenças que você viu são conhecidas, catalogadas e discutidas há muito tempo. Algumas já eram discutidas na própria página, pelos corretores. Hoje, estão nas notas e nos colchetes das Bíblias. E cada tradição tomou sua decisão às claras, como você viu: os católicos, com o Concílio de Trento e as notas das suas Bíblias; os ortodoxos, com o que leem na liturgia; os protestantes, com a escolha do texto grego de cada tradução.
E ele não encerra a discussão entre especialistas. Um manuscrito antigo é uma testemunha muito importante. Mas é uma testemunha, não um juiz. Há estudiosos que dão mais peso aos códices antigos, como o Sinaítico e o Vaticano. E há quem dê mais peso à grande maioria dos manuscritos gregos e às citações dos Padres da Igreja. Por isso, as Bíblias de hoje não concordam em tudo. E dizem isso nas notas.
O que ele prova, então? Aqui vai a nossa tese. O Códice Sinaítico não é o original, nem um segredo. É a prova de como a Bíblia chegou até nós: copiada à mão por vários copistas, conferida com outras cópias, corrigida por leitores durante oito séculos, guardada por monges, disputada por impérios, paga em parte por doações do público e, hoje, aberta a qualquer pessoa. Tudo à vista. Com a marca de cada mão.
E isso muda o jeito de ler as notas de rodapé da sua Bíblia. Elas não são sinal de que esconderam algo de você. São o rastro de uma conversa de dezesseis séculos, que continua aberta.
31:01Convite
Se você chegou até aqui, agora conhece a história de um dos livros mais importantes da história da Bíblia. Em uma frase: a Bíblia que você lê chegou até você por muitas mãos. Mãos que copiaram, corrigiram, guardaram e discutiram, à vista de todos.
E, se esta história te deu vontade de abrir a Bíblia hoje, abra. Comece por Marcos 16. Leia o capítulo inteiro, com as notas da sua edição. E tire as suas conclusões.
Até o próximo episódio.
De onde vem cada informação30 fontes
O minuto mostra em que ponto do vídeo cada fonte aparece. Os links levam à fonte.
- i00:13Tischendorf, When Were Our Gospels Written?, 1865, trad. inglesa na CCEL (tradução nossa).ccel.org
- ii00:13Codex Sinaiticus Project (British Library, Univ. de Leipzig, Biblioteca Nacional da Rússia, Mosteiro de Santa Catarina), History.codexsinaiticus.org
- iii00:30Mosteiro de Santa Catarina, Codex Sinaiticus.sinaimonastery.com
- iv00:30Codex Sinaiticus Project, Datecodexsinaiticus.org
- v00:30Codex Sinaiticus Project, Significancecodexsinaiticus.org
- vi01:02Codex Sinaiticus Project, Productioncodexsinaiticus.org
- vii01:13Codex Sinaiticus Project, Contentcodexsinaiticus.org
- viii01:13H. B. Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek, 1914.Pesquisa históricaarchive.org
- ix02:21Codex Sinaiticus Project, visualizador do manuscritocodexsinaiticus.org
- x04:14Mosteiro de Santa Catarina, Historysinaimonastery.com
- xi04:43Texto bíblico: Almeida de 1904, grafia de hoje (abaixo)Bíbliaarchive.org
- xii07:06Eusébio de Cesareia, Vida de Constantino IV.36-37; trad. NPNF, 1890.Patrísticanewadvent.org
- xiii07:45F. G. Kenyon, Handbook to the Textual Criticism of the New Testament, 1912.Pesquisa históricaarchive.org
- xiv08:50NPR, 06/07/2009, entrevista de Scot McKendrick (trad. nossa).npr.org
- xv09:29Edito de Diocleciano (301), 7.39-40, ed. S. Lauffer, 1971, via B. Nongbri, 2024.Pesquisa históricabrentnongbri.com
- xvi09:51Edito de Diocleciano (301), cap. 7, ed. Th. Mommsen e H. Blümner, 1893.Pesquisa históricaarchive.org
- xvii09:51Leitura da redação, com base nas fontes deste vídeoNossa leitura
- xviii10:31Universidade de Birmingham, 06/07/2009.birmingham.ac.uk
- xix15:11S. E. Porter, Biblical Archaeology Review, set./out. 2015, via Bible History Daily, 2018.Pesquisa históricabiblicalarchaeology.org
- xx21:12Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, Uma chave de texto para o Novo Testamento.Tradição protestante históricabiblias.com.br
- xxi21:22USCCB, New American Bible Revised Edition, nota a Mc 16:9-20 (trad. nossa).Tradição católicabible.usccb.org
- xxii21:39Holy Trinity Orthodox, 3rd Matins Gospel, Mc 16:9-20.Tradição ortodoxaholytrinityorthodox.com
- xxiii21:39St. Nicholas Orthodox Church, 29/04/2012.Tradição ortodoxaorthodox.net
- xxiv21:56Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e Corrigida.Tradição protestante históricasbb.org.br
- xxv21:56NAA © SBB 2017: Mc 16:9-20 entre colchetes, só o fato.Tradição protestante históricabibliaonline.com.br
- xxvi22:30USCCB, NABRE, nota a Jo 7:53-8:11 (trad. nossa)Tradição católicabible.usccb.org
- xxvii22:52Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e AtualizadaTradição protestante históricasbb.org.br
- xxviii23:30D. Jongkind, Tyndale House, 15/11/2018, com o aparato do NA28 e do IGNTP.Pesquisa históricatyndalehouse.com
- xxix25:58Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica III.3 e III.25; trad. NPNF, 1890Patrísticanewadvent.org
- xxx26:31Concílio de Trento, sessão IV, 1546; trad. J. Waterworth, 1848.Tradição católicahistory.hanover.edu
Texto bíblico: Bíblia Sagrada, trad. João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida, American Bible Society, Nova York, 1904. Domínio público. A grafia é a de hoje. A NAA (© SBB, 2017) aparece só como fato, Mc 16:9-20 entre colchetes; nenhum texto dela é lido.
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